A cifra do jogo

por Alexandre Dias Ramos

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Ganhando ou perdendo, o importante é participar. Mas pelo menos leia as regras antes de começar a jogar

O xadrez é a representação, no tabuleiro, da disputa entre dois reinos. As dinastias medievais presavam o território, o poder e a distinção social. Qualquer semelhança com o mundo da arte pode não ser coincidência.

Cada projeto, exposição ou publicação de arte movimenta um número relevante de agentes do campo que exercem seu papel para fortalecer procedimentos, valores e conteúdos que fazem parte de uma dinâmica maior do jogo. Movimentar-se de maneira errada pode significar, na maioria das vezes, sua eliminação; por outro lado, movimentar-se de maneira correta te possibilita transitar pelos lugares certos, ter acesso aos meios e pessoas certas, e vencer dentro do campo.

Em seu livro Manual de Estilo da Arte Contemporânea: o guia essencial para artistas, curadores e críticos,1 Pablo Helguera compara, de maneira irônica e assertiva, alguns agentes do mundo da arte com peças do jogo de xadrez. O livro definitivamente não trata apenas disso — e é sem dúvida um manual indispensável para a compreensão do nosso ecossistema —, no entanto, vale a pena nos fixarmos na comparação:

  • Os diretores de museu como sendo o Rei, a peça mais importante do jogo, mas ao mesmo tempo a mais contraditória, uma vez que não tem muito poder por si só, podendo se movimentar para qualquer direção, mas sempre de maneira limitada. Depende muito do apoio das demais peças, principalmente da Rainha.
  • Os colecionadores como a Rainha, sendo do mesmo “time” do Rei, é a peça mais poderosa e flexível, que possui mais recursos de mobilidade por todo o espaço do jogo, tendo forte influência nas decisões e estratégias dos outros componentes. Em grande medida, é quem define o resultado do jogo.
  • Os curadores como as Torres, com poderes unilaterais, necessitam sempre do apoio da Rainha e de outras peças para seguir adiante.
  • Os galeristas como os Cavalos, que são peças imprevisíveis e de longo alcance; ajudam na sobrevivência dos Peões e, conforme sua posição no jogo, podem trazer êxito para eles.
  • Os críticos como os Bispos, que se movem sempre de forma diagonal e levam consigo o peso moral do jogo. Apoiam, de longe, os Peões e de perto a Rainha e o Rei.
  • Os artistas como os Peões, as peças mais frágeis e irrelevantes do jogo, com poder de manobra limitado. Também são as peças mais populosas e as que mais precisam de ajuda de todas as outras peças. Conforme avançam no tabuleiro, adquirem mais notoriedade, a ponto de, no final, poderem se transformar em qualquer outra peça (geralmente em Rainha) e determinar as regras do jogo.

“(…) no mundo da arte se deve utilizar uma estratégia que é tanto de guerrilha como de sedução.” 2

E vence o jogador que tiver as melhores estratégias. O curador, ao contrário do que o grande público acredita, tem poder muito limitado, e depende constantemente da infraestrutura e do apoio das instituições públicas e privadas, colecionadores e patrocinadores envolvidos nos projetos; sendo que, para cada um destes, o peso maior está no dinheiro e nos interesses que sustentam estes apoios. Numa dinâmica bastante contraditória, o curador se torna mais conhecido e “poderoso” quanto maior for sua rede de relações com pessoas e instituições influentes, que por sua vez determinam a ele como o jogo deve ser jogado.

A comparação proposta por Helguera dá uma dimensão clara dos limites do raio de ação de cada agente dentro do sistema da arte. Ao mesmo tempo que ele desmistifica a força do artista e do curador, traz a figura do colecionador como aquele que exerce maior influência no mercado. Se pensarmos que alguns dos maiores museus de arte do mundo são financiados e mantidos por ricas famílias através da doação de obras ou grandes quantias em dinheiro, podemos então imaginar a influência que alguns desses colecionadores detêm sobre essas instituições.

Ser colecionador é fazer parte de um clube seleto de apreciadores que podem adquirir, guardar e mostrar muitas das obras que apreciam; é poder compartilhar o amor pela arte e frequentar ambientes onde esse amor é valorizado. Ao mesmo tempo, tal posição privilegiada é a que exige, dentre as várias posições de atuação no campo da arte, a menor especialização — grosso modo, basta ter dinheiro para comprar obras de arte. Essa constatação propositalmente afoita permite mostrar que o sistema pode ser fortemente influenciado por pessoas (em posições-chave) que não estão profissionalmente tão bem preparadas — quanto críticos de arte ou professores universitários, por exemplo — e que podem, de acordo com seu gosto pelo azul, pelo tema de seu “designer de interiores” ou pelas lembranças frugais de sua esposa, adquirir ou rejeitar determinadas obras em galerias, feiras ou leilões de arte e, de alguma forma, interferir na trajetória de artistas, marchands ou museus.

Por outro lado, o mercado de arte costuma se balizar pela qualidade, e é certo que os colecionadores mais bem preparados, mais assíduos e estudiosos têm coleções mais relevantes e atuam no mercado de maneira mais profissional, comprando não por impulso, mas a partir de um conjunto de aspectos que leva em conta o gosto, mas também a procedência, a poética do artista e sua trajetória nos acervos de instituições culturais, tornando a compra um ato que afeta o mercado positivamente, pois faz sentido para todo o sistema.

Jogar xadrez exige tempo, paciência e muita, muita, estratégia: é preciso pensar cada movimento a curto, médio e longo prazo, abrir mão de certas peças para conquistar outras… tudo está ali, visível no tabuleiro, mas invisível para quem não tem a prática do jogo. Como disse Pierre Bourdieu, faz parte do jogo aquele que participa de suas regras e possui a cifra para decifrá-las.

A ironia mordaz do livro de Pablo Helguera algumas vezes parece leve diante do que presenciamos no dia a dia das instituições. “Forças ocultas” interferem nas regras do jogo o tempo todo, somos peças mas ao mesmo tempo jogadores, e — para acrescentar um pouco de emoção — nem sempre sabemos com quem estamos realmente jogando. Por essa razão, nunca é tarde para ler um manual que mostra como lutar (com estilo) com as armas que temos e, acima de tudo, conseguir sobreviver. Bem, esperamos também que haja aí algum espaço para a sorte. 

 

Manual de Estilo del Arte Contemporáneo
de Pablo Helguera
176 págs., brochura
Tumbona, México, 2013
tumbonaediciones.com

 

The Pablo Helguera Manual of Contemporary Art Style
de Pablo Helguera
132 págs., brochura
Jorge Pinto Books Inc., Nova Iorque, 2007
pintobooks.com

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1 . Tradução livre. Infelizmente, este livro ainda não foi publicado no Brasil.(Nota da nota: Fica a dica!)

2 . Helguera, Pablo. Manual de Estilo del Arte Contemporáneo. México, Tumbona Ediciones, 2005. p. 29. [trad. livre]