Pietá em Nova Iorque: um empréstimo inacreditável

by Camila Kieling

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Fazer a Pietá sair do Vaticano e atravessar o Atlântico soa tão extraordinário quanto a conquista do espaço

Há 52 anos, em abril de 1964, iniciavam-se os preparativos para a travessia terrestre e marítima que levou a icônica Pietá (1499), escultura de Michelângelo Buonarroti (1475-1564), do Museu do Vaticano aos pavilhões da 1964/1965 New York World’s Fair. A bordo do paquete Cristoforo Colombo, o transporte da peça de valor inestimável provocou curiosidade, excitação e incredulidade aos olhos do mundo. O feito, que hoje soa improvável, só foi possível graças a uma favorável conjuntura política e a um minucioso plano de logística.

A autorização do envio da Pietá aos Estados Unidos – primeira e única vez que a obra saiu do Vaticano desde que Michelângelo ali a posicionou – foi concedida pelo Papa João XXIII. As negociações começaram no outono de 1962. Em outubro desse mesmo ano, teve início o Concílio Vaticano II, encontro no qual um dos temas mais discutidos foi a inserção da Igreja no mundo moderno. Dias depois, a crise dos mísseis em Cuba marcaria o ápice da tensão entre EUA e URSS.

Após a superação da iminente catástrofe nuclear, nada como a fantástica exibição da Pietá, a mais perfeita expressão artística da compaixão, para corroborar os valores da Feira que adotou como tema “Paz Através do Entendimento” e dedicou-se às “conquistas do homem em um globo que se contrai e um universo que se expande”. A conquista do espaço parecia não conhecer fronteiras.

Em termos práticos, foi uma travessia preparada à exaustão. Registros da viagem indicam que a Pietá foi revestida por material amortecedor da mais alta tecnologia e colocada em uma caixa de madeira resistente envolta por um container de metal à prova d’água. Um dispositivo especial de segurança garantiria a flutuação da estátua caso o convés no qual era transportada submergisse. Uma viagem-teste foi realizada com uma réplica que permaneceu nos Estados Unidos e encontra-se, atualmente, no Immaculate Conception Center in Douglaston, Queens, Nova Iorque. A imprensa da época informou que um seguro no valor de U$ 6 milhões cobriu a peça.

Pieta was being packaged in a wooden crate.
Pietá sendo embalada na caixa de madeira.

 

Crate containing the Pieta leaving the St. Peter’s Basilica, Vatican.
Caixa, contendo a Pietá, saindo da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Pietá, em meio a vultuosos pavilhões que exaltavam a potência científica e a explosão do consumo dos americanos, transformou-se na joia da coroa da Feira. A cenografia da exposição ficou ao cargo do set-designer da era de ouro da Broadway, Jo Mielziner (1901-1976). A peça foi posicionada em um plano inclinado, que tornou o rosto de Jesus mais visível entre os braços de Maria, conforme as orientações originais de Michelângelo para sua apreciação. Frente a um pano de fundo azul royal, encimada por um halo composto por mais de 400 lâmpadas e protegida por uma placa de plexiglass à prova de balas, a Pietá foi admirada por milhares de visitantes, posicionados sobre esteiras rolantes que operavam em diferentes velocidades, formando um verdadeiro corpo de baile ao som de cantos gregorianos.

Moving walkways at various heights enabled millions to view the Michelangelo's sculpture. © Official Guide Book Vatican Pavilion - 1964/ 1965 New York World's Fair.
Esteiras rolantes permitiram que milhões de pessoas pudessem ver a escultura de Michelângelo.
© Official Guide Book Vatican Pavilion – 1964/ 1965 New York World’s Fair.

A memorável travessia teve um impacto simbólico imenso, permitindo à Igreja marcar seu lugar em um mundo cada vez mais dominado pela técnica. Após esse feito histórico, e apesar da formidável experiência logística conquistada, a Pietá nunca mais saiu da Basílica de São Pedro. Realizar algo assim na conjuntura atual seria provavelmente impossível – ainda que estimável do ponto de vista monetário. A experiência do empréstimo da Pietá demonstra as intrincadas relações políticas, financeiras e tecnológicas que configuram a experiência humana em nosso planeta. 

Um agradecimento especial para Bill Young.