Arquitetura e novas tecnologias: o museu como fenômeno de massa

by Bianca Lupo

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Cada vez mais estimulantes, os museus vêm despertando a atenção de públicos variados, atraídos não somente pelas exposições, mas também pela diversidade dos espaços arquitetônicos propostos

É notável a popularidade dos museus na atualidade. Longas filas, projetos de arquitetura ambiciosos e presença massiva nos meios de comunicação e nas redes sociais configuram-se como práticas habituais nos últimos anos. A visita ao museu passa, cada vez mais, a abranger públicos heterogêneos, mesclando lazer, cultura e entretenimento. De fato, os museus constituem atrações imperdíveis nos circuitos culturais e turísticos das cidades, alimentados pelos altos investimentos em marketing, produção e renovação de exposições permanentes, ampliando assim seu raio de difusão institucional.

O museu encarado como fenômeno de massa é uma realidade relativamente recente, nascida com a sociedade pós-moderna na década de 1970. A chamada “cultura de museus”, caracterizada pela potencialização de uma ampla gama de produtores e consumidores de artefatos culturais, lança mão de uma série de recursos de promoção e inventividade estética com o objetivo de transformar a cultura num grande espetáculo de sucesso.

Intervenções de arquitetura de grande porte – geralmente utilizando materiais e sistemas construtivos inovadores e de aparência high tech – constituem estratégias para a geração de interesse e promoção institucional. Edifícios históricos são restaurados e requalificados, colaborando enormemente com o desenvolvimento dos espaços públicos adjacentes. A arquitetura passa a ser encarada como elemento vital de comunicação, dominando o espaço por sua força persuasiva e simbólica, em espetaculares experiências espaciais a partir de projetos de renomados arquitetos. Como exemplo, é possível citar o Museu Nacional dos Coches (Lisboa, 2015), de Paulo Mendes da Rocha; o Museu Nacional de Arte do Século XXI (Roma, 2009), de Zaha Hadid e a reformulação do Royal Ontario Museum (Toronto, 2007), de Daniel Libeskind.

Se, por fora, a espetacularização da arquitetura de museus demonstra sua importância e visibilidade no contexto urbano das cidades, por dentro, além dos auditórios, lojas, cafés, livrarias e espaços cyber que convidam o público à permanência, verifica-se também a adoção de uma série de recursos que tornam as exibições mais atraentes, coloridas e sedutoras. Deste modo, vê-se que tanto a arquitetura como a expografia buscam hoje impressionar o público e ampliar a capacidade de se relacionar com ele. Assim, é frequente a presença de monitores, telas, projeções, espetáculos de luz e som, criação de cenários e uma série de outros artifícios que aproximam a linguagem dos museus às características intrínsecas à era da informatização.

Outros recursos são mobilizados de modo a facilitar a comunicação entre museu e público: áudio-guias, mobile tags, QR Codes, e aplicativos acrescentam diversas camadas informacionais à visita. Alguns desses recursos podem também ser utilizados fora do espaço do museu, criando novas maneiras de se relacionar com o público – antes, durante e depois da visita. Nesse sentido, o museu estimula a participação ativa dos visitantes na produção de significados da arte, e se torna um espaço de construção mútua de conhecimento.

Cat mummy through the ScopifyROM app. Photo: Brian Boyle. © Royal Ontario Museum.
Múmia de gato vista através do aplicativo ScopifyROM. Foto: Brian Boyle. © Royal Ontario Museum.

Além de fomentar novas relações entre o visitante e o objeto artístico, a incorporação de ferramentas digitais no espaço museológico também abre possibilidades no que se refere à preservação do patrimônio histórico e artístico. Afinal, nem a presença de obras de arte é mais um requisito obrigatório para a existência de um museu, o que pode ser observado pela proliferação de instituições sem acervo que usam recursos tecnológicos para apresentar, de forma lúdica e imaginativa, temas livres e imateriais. Possibilita-se, dessa maneira, a ampliação do campo de ação museológica com a abordagem de novos tipos de patrimônio. Em tais casos, a pesquisa dos museus gira em torno de atividades como a coleta de depoimentos, vídeos, entrevistas e arquivos digitais. Como exemplo, é possível citar o Museu do Terror (Budapeste, 2002), o Museu da Língua Portuguesa (São Paulo, 2006),1 o Museu do Futebol (São Paulo, 2008) e o Museum of Jewish Montreal (2010).

Profundas mudanças sugerem uma série de reflexões sobre seus significados e suas consequências. Como a arquitetura de museus e sua relação com os acervos respondem às novas demandas da contemporaneidade? De que modo se configuraram as relações entre museu e público na era digital? Que caminhos são abertos com a incorporação de novos temas no espaço do museu? Responder a essas questões, evidentemente, não é uma tarefa simples. De qualquer modo, para quem se interessa por museus, este parece ser o momento perfeito para visitá-los, pensar e refletir sobre eles. E por que não tirar uma selfie antes de sair?

 

Acima . Fachada do Royal Ontario Museum, Toronto, Canada. Foto: Sam Javanrouh. © Royal Ontario Museum.

1. Em dezembro de 2015, o Museu da Língua Portuguesa, localizado no edifício da Estação da Luz, foi destruído por um grande incêndio. Contudo, a natureza digital do acervo permitirá sua recuperação por meio dos backups existentes – o que demonstra as novas possibilidades abertas pelo uso de tecnologias digitais no âmbito da preservação patrimonial.