Visões da Monalisa

por Thais Rivitti

 

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Tal como milhões de turistas que visitam anualmente o museu do Louvre, Isis Gasparini realizou, em 2010, seu retrato da Monalisa. Ou melhor, Monalisas. Le Gioconde, em italiano, no plural, é um conjunto de três fotografias, feitas na sala mais famosa do museu francês, a Salle de la Joconde. O tema escolhido por Isis não podia ser mais banal. Mas a forma de abordagem distancia-se criticamente da mesmice das imagens da Monalisa que vemos aos montes na internet. Seu trabalho, assim, nos revela algo próximo à visão da própria Monalisa da sala em que habita no Louvre.

Le Gioconde1

Le Gioconde2

Le Gioconde3

Curiosamente, no momento em que um contato direto com a obra se mostra possível (apesar do vidro, da multidão que se aglomera e dos aparatos museológicos de controle), ninguém a contempla. Exceto, talvez, o velho que a primeira fotografia nos mostra, no quadro pintado por Tintoretto (Portrait d’homme âgé tenant un mouchoir) que vemos no fundo da primeira foto, e a mulher do retrato pintado na segunda fotografia. A relação parece estabelecer-se de fato entre as pinturas que convivem numa mesma sala. Na terceira foto, onde vemos ao fundo um fragmento de Les Pèlerins d’Emmaüs, de Veronese, o quadro se mistura aos turistas do museu: há uma passagem sutil entre essas duas realidades, o que sugere uma continuidade entre esses dois mundos.

A relação estabelecida entre as pinturas, sempre tomando como ponto de vista a Monalisa, talvez comente a presença dos espectadores. Atraídos por seus próprios aparelhos de fazer imagens, esses peregrinos contemporâneos vão ao museu para ver o que já conhecem – não a Monalisa, mas a sua imagem. Encerrados nessa ação tautológica, cujo resultado já estava previsto de antemão, eles carecem de abertura e disposição para realmente ver, no sentido que Didi Hurberman compreende a visão: como operação fendida, inquieta, agitada e aberta entre aquele que olha e o que é olhado.